A Gestão da Integridade de Ativos (AIM) é um domínio fundamental para indústrias de processos de grande porte. Trata-se de uma disciplina voltada a maximizar a eficiência e a confiabilidade de plantas industriais, envolvendo múltiplas metodologias, sistemas, profissionais e atividades. Este blog explora como líderes industriais estruturam a AIM, apresentando um passo a passo para a implementação de um programa robusto. No entanto, antes de compreender o estado atual da AIM, é importante entender: como essa disciplina evoluiu até se tornar uma área tão complexa e específica?
Entendendo a Gestão da Integridade de Ativos
A Gestão da Integridade de Ativos (Asset Integrity Management – AIM) é uma abordagem sistemática voltada a garantir a segurança, a confiabilidade e a eficiência de ativos industriais ao longo de todo o seu ciclo de vida. Ela integra políticas, procedimentos e tecnologias para prevenir falhas, reduzir riscos e assegurar conformidade com requisitos regulatórios e operacionais. Ao combinar planejamento proativo, monitoramento contínuo e decisões orientadas por dados, a AIM contribui para a melhoria do desempenho operacional, a extensão da vida útil dos ativos e a proteção das pessoas, do meio ambiente e da continuidade do negócio.
Ao longo do tempo, a AIM passou por uma evolução contínua, adquirindo novos significados em um contexto cada vez mais interconectado. Assim como em suas origens, a AIM permanece um campo multidisciplinar, moldado pela necessidade de adaptação às condições operacionais. Sua estrutura reflete modelos cíclicos de gestão, como o ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), destacando a melhoria contínua como elemento central para o aumento da segurança e da eficiência nas operações industriais.
Plan-Do-Check-Act (PDCA): fundamentos da gestão cíclica
O ciclo Plan-Do-Check-Act (PDCA) é uma estrutura fundamental de melhoria contínua, amplamente aplicada em diferentes setores para aprimorar processos e resultados. Ele se inicia com o ”Plan”, o planejamento, no qual objetivos são definidos e estratégias são estabelecidas. Em seguida, essas estratégias são executadas na fase “Do”. A etapa “Check” envolve a avaliação dos resultados e a identificação de desvios ou oportunidades de melhoria. Por fim, na fase “Act”, são implementados ajustes para refinar o processo.

Nesse contexto, a Gestão da Integridade de Ativos (AIM) moderna está fortemente alinhada aos princípios do PDCA, tendo a melhoria contínua como pilar central. Na fase “Plan”, a AIM estabelece políticas e estratégias de gestão de ativos, definindo objetivos a partir de registros históricos, como análises de risco, dados de paradas e grandes manutenções, relatórios de inspeção e documentos de integridade. Esses elementos permitem estruturar planos abrangentes que conciliam segurança e metas operacionais.
A fase “Do” corresponde à execução dessas estratégias por meio de atividades de inspeção, manutenção e testes. O objetivo é transformar o planejamento em ações concretas e mensuráveis, assegurando a conformidade com padrões de segurança e desempenho. Reparos temporários, ensaios não destrutivos e planos de pintura e revestimento são exemplos típicos dessa etapa.
Na fase “Check”, os resultados das intervenções são avaliados por meio da análise sistemática de dados, do monitoramento de indicadores de desempenho e da identificação de desvios em relação ao esperado. Indicadores-chave de desempenho (KPIs), como condição de corrosão, classificação de risco por severidade e criticidade e degradação superficial, são utilizados para medir a efetividade das estratégias adotadas. Essa etapa também assegura a conformidade com requisitos regulatórios e normas técnicas, protegendo a integridade operacional e a responsabilidade legal.
Por fim, a fase “Act” impulsiona a evolução do programa ao tratar lacunas identificadas e ajustar estratégias com base nas lições aprendidas. Isso inclui a atualização de políticas de integridade, a revisão de planos de manutenção e a incorporação de novas metodologias ou tecnologias. Os aprendizados da fase “Check” alimentam um novo ciclo PDCA, promovendo uma abordagem proativa à integridade de ativos e permitindo antecipar desafios futuros. Além disso, o alinhamento entre AIM e o ciclo PDCA é essencial para a obtenção da certificação ISO 55000, referência internacional em sistemas de gestão de ativos.
ISO 55000

Desenvolvida pela International Organization for Standardization (ISO), a norma ISO 55000 reforça uma abordagem sistemática, baseada em risco e orientada à melhoria contínua — princípios diretamente associados ao ciclo PDCA. A norma exige que as organizações estabeleçam políticas claras, implementem planos de gestão consistentes e monitorem continuamente seus processos, promovendo aprimoramentos constantes. Além disso, a ISO 55000 fornece uma base sólida para decisões fundamentadas em evidências, considerando aspectos técnicos, financeiros e operacionais. Nesse contexto, para extrair o máximo valor de uma abordagem cíclica de AIM, pode-se adotar a seguinte estrutura passo a passo.
Gestão da Integridade de Ativos passo a passo
A implementação de um programa eficaz de Gestão da Integridade de Ativos requer uma abordagem estruturada e metódica. A seguir, apresenta-se um framework em etapas que contempla os principais componentes da AIM e suas inter-relações.

Etapa 1: Sistemas fundamentais
Os sistemas fundamentais constituem a base de um programa de AIM, fornecendo estrutura, diretrizes e recursos para sua implementação. Essa etapa inclui o desenvolvimento e o alinhamento de elementos essenciais, como:
- Políticas e normas: o estabelecimento de políticas e normas de gestão de ativos garante que todas as ações sigam princípios consistentes. Em muitos casos, essas diretrizes são definidas por órgãos reguladores, assegurando aderência a padrões de segurança e desempenho reconhecidos pelo setor;
- Procedimentos e diretrizes operacionais: a definição clara de procedimentos para operação, inspeção e manutenção cria uma abordagem padronizada, reduzindo erros e variabilidades;
- Alocação de equipes e capacitação: a distribuição adequada de equipes com competências específicas é essencial para a execução das estratégias de AIM. Programas de treinamento robustos garantem que os profissionais estejam preparados para desempenhar suas funções com eficácia;
- Estruturas tecnológicas: a adoção de ferramentas digitais, como softwares de gestão de ativos, sistemas de coleta de dados e análises preditivas, amplia a visibilidade e o controle sobre o processo de integridade.

Etapa 2: Ações de medição
As ações de medição representam os processos analíticos e diagnósticos que avaliam a condição atual dos ativos e antecipam riscos potenciais. Elas fornecem insumos essenciais para a tomada de decisão e a priorização de atividades.
- Avaliações de integridade: análises periódicas da integridade estrutural e mecânica permitem identificar desgaste, corrosão ou danos que possam comprometer a segurança e a funcionalidade;
- Análises de risco: estudos como FMEA (Failure Mode and Effects Analysis) ou APR (Análise Preliminar de Risco) auxiliam na identificação de ameaças potenciais e na sua classificação por severidade e criticidade;
- Indicadores de confiabilidade: o acompanhamento de métricas como MTBF (Mean Time Between Failures) e MTTR (Mean Time to Repair) fornece visibilidade sobre a confiabilidade dos ativos e a eficiência das estratégias de manutenção;
- Auditorias de conformidade: a verificação contínua da aderência a normas técnicas, requisitos regulatórios e diretrizes da ISO 55000 reduz riscos legais e operacionais.

Etapa 3: Atividades em campo
As atividades em campo correspondem à execução prática das estratégias de AIM, convertendo planejamento e análises em ações concretas. Essas atividades são essenciais para manter e restaurar a integridade dos ativos em ambientes operacionais reais.
- Programas de inspeção: inspeções rotineiras, utilizando técnicas de ensaios não destrutivos (END), como inspeções visuais, CVI, GVI, ultrassom, radiografia e termografia, permitem identificar falhas e degradações durante a operação;
- Atividades de manutenção: a manutenção preventiva e corretiva trata o desgaste natural e falhas inesperadas. A manutenção preditiva, baseada em dados em tempo quase real, contribui para antecipar problemas e otimizar recursos;
- Procedimentos de teste: testes funcionais e de desempenho verificam se os equipamentos atendem aos requisitos operacionais e de segurança, incluindo testes de pressão, detecção de vazamentos e testes de carga;
- Reparos temporários: quando soluções imediatas são necessárias, medidas temporárias garantem a continuidade da operação até a implementação de soluções definitivas;
- Proteção anticorrosiva e revestimentos: a aplicação de revestimentos protetivos e a gestão de sistemas de proteção catódica reduzem a degradação dos materiais e prolongam a vida útil dos ativos.

Desafios na implementação de um programa de AIM
A implementação de um programa eficaz de Gestão da Integridade de Ativos envolve desafios significativos, especialmente no equilíbrio entre desempenho, risco e custos. Esse equilíbrio é essencial para otimizar investimentos, tempo e recursos, assegurando a longevidade dos ativos industriais. Entretanto, a complexidade dos processos, o envelhecimento das instalações e a evolução constante dos requisitos regulatórios dificultam esse objetivo. Diante disso, quais são os principais desafios enfrentados na implementação de um programa de AIM?
Limitações dos métodos tradicionais de inspeção
As inspeções visuais desempenham papel central na identificação de desgaste, rachaduras, corrosão e outras anomalias que podem levar a falhas e acidentes operacionais. Contudo, métodos tradicionais dependem fortemente de inspeções em campo, apresentando limitações de eficiência e precisão para um monitoramento contínuo. Isso aumenta a frequência dos ciclos de inspeção e manutenção e eleva o risco de falhas não detectadas, que podem resultar em interrupções operacionais de alto custo. Além disso, diferentes tipos de anomalias podem apresentar aparência semelhante à observação humana, exigindo classificações técnicas mais precisas, o que torna o processo de registro e análise ainda mais complexo.
Integração de fontes de dados dispersas
Outro desafio relevante está na integração de múltiplas fontes de dados. Instalações industriais utilizam diversos sistemas para coleta e armazenamento de informações, frequentemente em formatos não estruturados ou pouco padronizados, como planilhas, relatórios, sistemas locais ou plataformas em nuvem. Sem uma integração eficaz, informações críticas permanecem isoladas, atrasando decisões e reduzindo a eficiência operacional. De acordo com o Journal of Petroleum Technology, cerca de 80% do tempo dos profissionais da indústria offshore é consumido na busca e interpretação de dados não estruturados para embasar decisões.
Conclusão
A Gestão da Integridade de Ativos (AIM) é um pilar essencial para garantir segurança, confiabilidade e eficiência em indústrias de processo de grande porte. Ao integrar sistemas fundamentais sólidos, ações de medição precisas e atividades de campo bem direcionadas, as organizações conseguem enfrentar desafios operacionais de forma proativa, ao mesmo tempo em que atendem a requisitos regulatórios e metas de desempenho. A abordagem sistemática da AIM promove adaptabilidade e melhoria contínua, permitindo proteger ativos, otimizar processos e responder às crescentes demandas por sustentabilidade e evolução tecnológica.


